review battlestar galactica – Daybreak, Parte 2 (4×20-21)
Escrito pelo cabeludo da foto ao lado. Dirigido por Michael Rymer.
“I see angels, angels in this very room. Now I may be mad, but that doesn’t mean that I’m not right, because there’s another force at work here. There always has been. It’s undeniable. We’ve all experienced it. Everyone in this room has witnessed events that they can’t fathom, let alone explain away by rational means. Puzzles deciphered in prophecy. Dreams given to a chosen few. Our loved ones dead. Risen. Whether we wanna call that “God” or “Gods” or some sublime inspiration or a divine force that we can’t know or understand, It doesn’t matter, it doesn’t matter. It’s here. It exists. And our two destines are entwined in its force.” -Gaius Baltar
Alguns anos atrás (acho que na estréia da 3ª temporada) fiz um Spoiler Zone para o Teleséries sobre Battlestar Galactica. Nos comentários, alguém perguntou por que eu não me tornava colunista titular da série, já que eu aparentemente gostava tanto do programa. Respondi que não me sentia confiante o suficiente pra destrinchar todos os aspectos filosóficos/metafóricos do show. Hoje em dia eu confio muito mais no meu taco, mas mesmo assim, recomendo fortemente a leitura dos textos do Sepinwall e da Mo Ryan (que é uma graça – quebrou o embargo pra me disse via twiiter [em português!] que havia adorado a primeira metade do episódio), já que não sou muito do tipo de ficar discutindo conjecturas e o sexo dos anjos.
Isso nos leva ao post do blog que o Ron Moore mantinha no site do Sci-Fi Channel, onde ele baba o ovo do David Chase pela series finale de Sopranos, e que ele gostaria de ter pensado na idéia antes (e mesmo que ele tivesse pensado, a série do Chase terminou antes – perdeu preibói). Ou seja, por mais que a resolução tenha sido satisfatória do ponto de vista dos personagens (sabemos o que aconteceu com quase todo mundo), claramente ele quis deixar algumas lacunas. Você pode preenchê-las com a idéia de Deus/alguma manifestação divina/destino/whatever ou ficar de #mimimi dizendo que o cara trapaceou e não fechou todas as pontas. Eu fico com a primeira opção.
[E antes de entrar nos comentários propriamente ditos, reforço o que disse na semana passada. Daybreak é apenas um episódio. É impossível julgá-lo propriamente apenas pela sua primeira parte. Trata-se de um roteiro com os três atos (e um epílogo) bem definidos.]
A série sempre teve um grande gravitas religioso. E o episódio mais uma vez reforçou isso. Mas ao mesmo tempo, ela prega o livre arbítrio. Foi a mão de Deus que fez com que Racetrack disparasse as ogivas que destruíram a Colônia de Cavil, mas foram escolhas pessoais que fizeram Adama (que não se sujeitou a ser entrevistado), Roslin (aceitou trabalhar na campanha de Adar) e Baltar (deixou a Six invadir os PCs do Ministério da Defesa) estarem onde eles estão. É um balanço entre as duas coisas.
Por essa razão, eu fiquei perplexo ao ver que certas pessoas queriam todas as respostas mastigadas. Esse nunca foi o modus-operandi da série. Eu pessoalmente gostaria de uma resposta um pouco menos vaga pro destino da Starbuck, mas daí a ficar condenando o episódio por causa disso são outros quinhentos.
No episódio anterior, estávamos prestes a presenciar a ofensiva final da Galactiva à Colônia de Cavil. Aos trancos e barrancos, eles conseguem resgatar a pequena Hera. Mas Cavil consegue alcançar o CIC e recebe uma oferta. O segredo da ressurreição em troca da paz. Ele aceita, mas não contava que Tyrol esganasse sua companheira Tory por vingança (acertadamente, o assunto foi varrido pra debaixo do tapete, pra que ninguém visse that one coming). Um último tiroteio é travado, e Kara salta com a nave para as proximidades de um certo planeta.
Agora antes que vá adiante: eu nunca mais levo o Emmy a sério se esse episódio não ganhar os prêmios de efeitos visuais e trilha sonora. Seriously, é o melhor uso de FX já visto em uma série de TV. Eu sei que o Gary Hutzel já ganhou duas vezes, but frak that, o cara é genial. O mesmo vale pro McCreary. E isso que eu não notei algumas das brincadeirinhas dele, como usar o tema da série original na cena em que a frotas está indo em direção ao sol. E a edição, meldeos? A casa de ópera tomando forma diante de nossos olhos e Starbuck usando Watchtower nas coordenadas do salto são a prova do porque três montadores foram necessários.
Dia desses, assisti com a namorada a série do Guia do Mochileiro das Galáxias. Interessante que o final da série (que é o mesmo que o final da primeira temporada da radiossérie – ambas vão além do livro) é o mesmo que o de Galactica: os personagens chegando em Terra-2 (o planeta original havia sido destruído) e se encontrando com os homens-das-cavernas.Mas a obra do Adams acaba por aí, enquanto que para BSG, esse é apenas o início do terceiro ato.
Conta Ronald D. Moore que ele estava tendo problemas em escrever esse último episódio. Até que ele teve uma epifania: “It’s the characters, stupid!”. Isso explica a última parte do episódio, em que calmamente vemos o destino de todos os personagens. Saul e Ellen agora podem viver sem contratempos (YEAAAAAAAAH!). Tyrol se isola depois de perder seus dois amores. Lee fica chupando o dedo depois que Kara subiu aos céus (Adama, Lee e Kara = Pai, Filho e Espírito Santo – pensem nisso). Caprica Six e Baltar se entendem (a frase da finale que mais me emocionou foi justamente “You know, I know about farming”, quem diria). Adama construirá sua cabana e Karl, Athena e Hera se tornarão uma família feliz.
E aí vamos para o epílogo, que linka os eventos da série com o mundo em que vivemos de forma mais forte do que nunca. Em pleno 2009 (150 mil anos depois da chegada da frota ao planeta), Head Baltar e Head Six (se você acha que eles são anjos, ligue para 0800-555-0011, se você acha que são demônios, ligue para…) discutem se a história se repetirá e quais as probabilidades de tais eventos acontecerem, com direito a montagem com robozinhos japoneses, tudo ao som da versão de Jimi Hendrix de All Along the Watchtower.
Fim.
Confesso que esse final não me agradou 100%. É basicamente Ron Moore piscando pra nós (só faltou ele piscar literalmente on screen) e dizendo “Cuidado aí, pessoal”. Eu entendo a mensagem e o tom descontraído dela, mas eu preferiria muito mais que a última imagem do programa fosse Adama admirando a paisagem ao lado do túmulo do Roslin.
Sobre o episódio como um todo: puta roteiro do Moore, que conseguiu fechar satisfatoriamente uma mitologia gigantesca em pouco mais de 2 horas (a directors’cut do DVD terá 20 minutos a mais). Nada foi por acaso. É possível pensar numa extensa relação de casualidades entre os eventos da série: a Galactica só pôde atrasar a nave colônia de Cavil porque Anders havia tomado um tiro na cabeça, que só aconteceu por causa da rebelião, que só aconteceu porque Gaeta ficou indignado por causa do suicídio de Dualla, que só se matou porque eles chegaram à Terra Devastada. A brincadeira vai longe
São tantas histórias, tantas questões. É a explicação de porque Battlestar Galactica transcende a ficção científica. Edward James Olmos disse em um especial exibido na semana anterior á finale que Battlestar Galactica é o tipo de programa que daqui a 25 anos será ainda mais reverenciado do que é hoje.
O que nos resta agora? Até o final do ano sai The Plan, o telefilme centrado em Cavil. Apesar de eu não botar muita fé nesse tipo de projeto (Razor é bem dispensável), o Irmão é muito mais personagem que Kendra Shaw. E nem vamos comparam a Stephanie Jacobson com o Dean Stockwell, por favor. Não tem data ainda, mas aposto em outubro ou novembro.
E ano que vem tem Caprica, que se passa 50 anos antes dos eventos de BSG e vai discutir os dilemas éticos envolvidos na criação dos cylons. A sinopse não é ruim, mas depois de Daybreak (que deu um fechamento pra toda a mitologia do programa), isso fica parecendo parece um estorvo desnecessário. Mas no mês que vem podemos tirar a prova, já que o piloto será lançado em DVD.
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