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E a sina continua. Não é que Psych, candidata à ser uma das comédias mais bacanas da nova temporada, também foge do padrão tradicional das sitcoms?
Shawn Spencer (James Roday) possui desde pequeno uma capacidade de observação espetacular. Depois de passar por dezenas de empregos sem conseguir se estabelecer, ele descobre que sua habilidade pode ajudar a resolver crimes. O problema é que, na polícia, ninguém acredita em sua condição. Para conseguir participar das investigações, ele precisa fingir que é um psíquico – o que obviamente é uma zoação com o tanto de dramas sobrenaturais exibidos atualmente.
Roday está ótimo como protagonista. Seus “transes”, onde ele supostamente se comunica com o mundo dos mortos são hilários. E ainda temos Dule Hill (que não perdeu tempo depois do fim de West Wing) como seu parceiro cético/nerd. Hill possui algumas das melhores tiradas do show. Quando perguntado se já foi preso, ele responde: “Claro, no Banco Imobiliário”. Mais correto, impossível.
Completa o elenco Corbin Bernsen, como o pai de Shawn. Fica evidente que o personagem foi colocado na história para dar um background dramático para o protagonista – foi ele que ensinou ao filho o poder da observação, além do relacionamento deles ser conturbado. Pelo menos até onde eu assisti, os momentos cômicos entre a dupla foram limitados. Uma dos aspectos que podem ser melhorados com o decorrer da série.
Já adquirida pelo canal Universal aqui no Brasil, Psych se apresenta como uma das atrações mais divertidas do ano.
PS: a série está sendo exibida durante o verão americano pelo canal USA – o mesmo de The 4400, e, tecnicamente não é considerado “novo piloto”, pois sua primeira temporada já passou da metade por lá.

O Sucesso a Qualquer Preço (Glengarry Glenn Ross; dir: James Foley; 1993)
Um dos melhores castings de todos os tempos. É isso que se pode falar sobre Glenn Ross. Ranking de atuações:
1. Jack Lemmon
2. Alec Baldwin
3. Al Pacino
4. Ed Harris
5. Kevin Spacey
De Harris pra cima, estão todos geniais. A direção e o roteiro contribuem pra isso. Todos eles têm, ao longo do filme, pelo menos um monólogo arrebatador. E os enquadramentos de câmera são quase todos planos fechados, cujo principal objetivo é deixar as estrelas exibirem seus trabalhos fantásticos com o menor número possível de interrupções.
(Atenção: o texto abaixo contém informações de toda a série, incluindo de seu episódio final. Nada de revelações bombásticas – como em Lost - mas algumas risadas serão desperdiçadas por quem nunca viu a série)
Como começar um texto sobre Arrested Development, a melhor série que ninguém vai assistir de todos os tempos? Sim, porque não conheço ninguém que assista e não goste, e todas os pouquíssimos que acompanha(ra)m são fãs assumidos.
Pra que não sabe, a história da série gira em torno de Michael Bluth, que é obrigado a assumir os negócios da família, depois que seu pai é preso por corrupção. Além disso, Michael (o filho exemplo) tem a missão informal de manter a família unida. Acontece que a tal família é formada basicamente por desajustados. Um dos irmãos é um pseudo-mágico com mania de grandeza, outro é um “bebezão” com mais de 30 anos e seu cunhado é um pseudo-ator cuja homossexualidade está prestes a desabrochar a qualquer momento.
Apesar de todos esses personagens excêntricos, o meu preferido é justamente Michael, pois ele representa justamente o elo do expectador com esse universo bizarro. Nos primeiros episódios da série, eu me sentia angustiado como ele, ao ver a família gastando o dinheiro da empresa daquele jeito – até porque eu sou um pão-duro de marca maior. Numa interpretação muito legal que a Fer fez, é possível dizer que Michael também é a personificação de Mitchel Hurwitz, criador da série, que durante três anos, fez o que pode para manter a série no ar. O choro de Michael (“Aquele robô que precisa comprar mais memória RAM”) é tocante, ao saber que também é o de Hurwitz. Jason Bateman, inclusive, merecia uma indicação ao Emmy só por essa cena. E se ele tivesse sido indicado, Development Arrested poderia ter rendido uma vitória ao ator. E como não gostar de um personagem que namorou Julia Louis-Dreyfus/Elaine/Christine e Charlize Theron, aquela do tio esquisito (“Mr. F!”)?
Mas a série não é só Bateman. Longe disso. AD tem o melhor casting de uma comédia de todos os tempos. Só espero que não aconteça o mesmo que aconteceu com o elenco de Seinfeld e – em menor escala – Friends e todos arrumem emprego logo. Eu quero ver mais de David Cross, Will Arnett, Jéssica Walter e cia o mais rápido possível!
A narração dos episódios é feita pelo ator/diretor Ron Howard. E vou dizer uma coisa, o trabalho dele na série me fará perdoar quaisquer tropeços cinematográficos que ele venha a cometer nos próximos 50 anos. O que começou com uma narração divertida e competente, atingiu níveis absurdos de insanidade (no bom sentido) com o decorrer das temporadas. Ou alguém aqui conhece outro narrador que discute e desmente os personagens durante os episódios? E a discussão que ele teve com um outro narrador no episódio Spring Breakout?
Além de tudo isso, Howard aparece em carne e osso para dar vida à última cena (e piada) da série.
Mas falar de Arrested Development sem falar de seus roteiros é a mesma coisa que nada. Você que nunca assistiu a série deve estar se perguntando: qual o tipo de humor que a série faz? A resposta é…TODOS. Vale tudo. Desde referências discretas (como o nome do personagem para o qual Tobias fez uma audição em Motherboy XXX), passando pelo óbvio e eficiente humor físico (a mão postiça de Buster caindo a todo o momento) até atingir o mais completo nonsense – ou um homem vestido de toupeira brigando com um jetpack kid tem algo de sutil?
Mas uma das coisas que mais me chamam a atenção em AD é a presença constante de metalinguagem – uma das ferramentas mais fascinantes que podem ser usadas para se contar histórias. E em S.O.B.s isso atinge a estratosfera. O episódio é praticamente um grande apelo para que o show seja assistido. As referências quanto ao futuro da série e as críticas ao “sucesso fácil” de outras atrações são metralhadas numa velocidade notável. No final, Michael revela a razão da decadência da companhia (e da série) em um monólogo desconcertante pela sua franqueza:
“I was going to say that you don’t know who my father really is and that what has happened to us is a great injustice, that we were never really given a fair chance. But that’s not the truth. We’ve been given plenty of chances. And maybe the Bluths just aren’t worth saving, maybe we’re not that likable, you know. We’re very self-centered. And my father may be the worst of us.”
A series finale é cheia de ótimos momentos, apesar do episódio ter sido corrido demais. A culpa é da FOX, já que a temporada foi drasticamente reduzida (de 22 para 13 episódios). Pensando melhor…a culpa é da FOX? A emissora manteve a série no ar por três anos, quase sempre com uma audiência medíocre. Cada episódio custava aproximadamente dois milhões de dólares, quase a mesma coisa que um de 24 Horas. Não é difícil adivinhar qual das duas dá maior lucro. E até o Emmy ajudou, dando o prêmio logo da cara pro programa – só pra efeito de comparação, Friends demorou oito anos pra ganhar, e Seinfeld quatro. Ou seja, a culpa é, acima de tudo, do público.
Como diria Tobias, em uma fala que cai como uma luva para os fãs da série:
“There are dozens of us! Dozens!”
E pelo jeito vamos continuar assim.
PS: agradecimento especial ao Anderson Vidoni, que me deu aquela força pra assistir a essa obra-prima da televisão.
Superman Returns (Bryan Singer, 2006)
Superman é um dos super-heróis mais complicados de se trabalhar no cinema. Se com outros personagens, é possível apresentar uma história sobre o adolescência (Homem-Aranha), uma fábula sobre o preconceito (X-Men) ou até mesmo uma versão moderna de Dirty Harry (Batman Begins); com o Homem de Aço isso não é tão simples. Grande parte dessa dificuldade vem da (in) vulnerabilidade do personagem. Se em estado normal ele é invencível, quando se acrescente kryptonita, o Super se torna o mais frágil dos seres. Como resolver esse dilema? Transformar os filmes do Azulão em um romance. Um romance disfarçado de blockbuster.
A idéia do diretor Bryan Singer nem é tão original assim – Richard Donner já fez a mesma coisa em Superman – O Filme de 1978. É possível definir O Retorno como uma declaração de amor de Singer ao trabalho de Donner. Há diversas referências distribuídas pelo longa. Uma foto de Glenn Ford – o Jonathan do longa original – no Rancho Kent, alguns diálogos que nos remetem ao filme clássico (“Estatisticamente falando, voar ainda é o jeito mais seguro de se viajar”) – além das “dicas” de que o Superman seria uma versão moderna de Jesus Cristo – se hoje em dia, ele cai na Terra com os braços abertos em formato de cruz, em 78 ele mostrou ser onipotente e girou a terra ao contrário para salvar sua amada. E qualquer adaptação que coloque Marlon Brando como o pai do salvador, já tem o meu respeito garantido.
Singer sabe como filmar bonito. A seqüência em que ele tenta impedir a queda de um avião é deslumbrante. Mas ele não se dá bem apenas com cenas de ação. Um exemplo disso é a cena em que ele voa pelos céus de Metrópolis com Lois é belíssima, nem precisa de diálogos para se fazer entender. Imagens dizem tudo. O diretor adicionou ainda alguns toques de humor negro, como nas piadas envolvendo os cachorros – uma no começo e uma no fim do filme, além de uma manchete de jornal estarrecedora que, para a alegria dos fãs, revela-se uma grande fraude.
A trilha sonora de John Ottman basicamente reutiliza os temas clássicos de John Williams e se sai muito bem. Quem não ficou arrepiado ao escutar o tema de abertura clássico da série?
O elenco é muito competente. Brandon Routh conseguiu desenvolver seus dois personagens de maneira convincente. O seu Clark Kent é menos “bobalhão” do que o de Reeve. Sinal dos tempos. Em pleno século XXI, quem torceria por um protagonista tão loser? Kate Bosworth cumpriu com destreza a tarefa de interpretar uma personagem mais velha que ela. E ainda por cima, sua Lois Lane é muito mais bonita do que a de Margot Kidder – embora ela não tenha a potência de uma Erica Durance. Outro ator que se destaca é James Marsden. Vivendo um personagem muito parecido com o feito por ele em Diário de Uma Paixão, Marsden mostra que ser o antagonista do mocinho em um triângulo amoroso não implica em ser necessariamente uma pessoa de má índole.
Já Kevin Spacey parece ter encontrado o tom certo para seu Lex Luthor. Fugindo da caricatura do trabalho de Gene Hackman na cinessérie original, Spacey adiciona uma aura mais ameaçadora ao personagem. Não é à toa que sua discussão com Lois Lane foi incluída no trailer. O problema de Luthor como personagem tem como culpado o roteiro. Eu não gosto da origem dessa origem que o personagem tem no cinema, de gênio do mal. Ela é muito pobre, fica parecendo algo “Sou mal porque sou mal”. Agrada-me muito mais a abordagem usada em Smallville, por exemplo, onde Clark e Lex se conhecem desde à adolescência, ela confere mais complexidade e credibilidade ao vilão – o tornando uma espécie de Darth Vader pós-moderno.
O filme possui uma reviravolta em sua segunda metade – a cena onde tal informação é confirmada se revela uma das melhores da fita*, que cria uma elipse em relação ao início do filme – e conseqüentemente ao original de 78. Muito tem se discutido sobre ela. Eu gostei. E quero ver como esse acontecimento será trabalhado nas seqüências vindouras.
Eu, fã de Smallville que sou, até tentei catar algumas referência à série. Mas não achei quase nada. Em uma das cenas mais divertidas do filme, Clark e Jimmy estão em um bar, tomando café, quando o noticiário anuncia que a cidade está em perigo. Olsen se vira para comentar o fato com o colega, mas encontra o assento ao seu lado vazio – na reprodução de uma das gags mais clássicas da série. O desfecho de Lex no filme também nos remete ao destino de seu correspondente televisivo, no final de uma das temporadas (não vou revelar qual delas pra não estragar a surpresa).
Por falar em séries, a seqüência envolvendo a queda de um avião me remeteu diretamente ao piloto de outra série de grande sucesso – precisa dizer qual? E por mais competente que Frank Langella seja ao interpretar Perry White, eu fiquei muito curioso em saber como Hugh Laurie (House) – a primeira escolha para o papel – trataria o personagem. E antes do filme começar, foi exibido o trailer de Sentinela – que promete ser um thriller bem interessante – que conta com as presenças de Kiefer Sutherland (24 Horas) e Eva Longoria (Desperate Housewives) no elenco.
A bilheteria aquém do esperado pode ser explicada no fato de que o filme não investe apenas na ação desenfreada. Antes de qualquer coisa, O Retorno conta a história de duas pessoas apaixonadas, que não sabem como lidar exatamente com os sentimentos que sentem um pelo outro. E é aí que reside sua grandeza. E que venha logo o próximo filme da série!
*meu momento Rubens Ewald Filho.
ATENÇÃO: O TEXTO À SEGUIR CONTÉM SPOILERS SOBRE O FILME
A Vila é um dos filmes mais subestimados dos últimos tempos. Todos os elementos que fizeram sucesso nas produções anteriores do diretor estão lá: direção impecável (ou quase, depois comento sobre isso), elenco maravilhoso, parte técnica – indo desde a fotografia, até a trilha sonora – soberba. E até mesmo a marca do diretor, o final surpresa, está presente.
A diferença é que em O Sexto Sentido ou em Corpo Fechado, o twist nos minutos finais serve para dar um ponto final à história – dando origem a comentários do tipo “Porque não notei isso antes?”. Em A Vila, tal revelação – que na verdade são duas – serve para abrir um leque maior de possibilidades.
Um dos maiores destaques da película é a protagonista do filme é interpretada pela linda Bryce Dallas Howard (dizem alguns, inclusive, que ela foi a maior contribuição que seu pai – o ator/diretor Ron Howard – já deu ao cinema). Ela transforma Ivy Walker em uma figura encantadora e forte. Ao contrário do que sua cegueira nos poderia fazer pensar no princípio.
Uma das minhas únicas ressalvas ao filme é quando, perto do final do filme, Ivy é atacada por uma das criaturas da floresta. Apenas alguns minutos antes, a informação de que tais criaturas eram apenas invenção dos anciões do povoado nos havia sido fornecida. Parece que Shyamalan quis apenas nos dar mais um susto. As conseqüências dessa cena para a história são totalmente compreensíveis. A minha implicância é com a cena em si. Talvez o flashback da cena onde Ivy descobre a verdade sobre tudo, deveria ser colocado mais adiante.
Apesar desse pequeno deslize, A Vila ainda é um dos filmes mais interessantes dos últimos anos, e assim como as outras produções dirigidas por M. Night Shyamalan, só melhora numa revisitada. Com uma vantagem, se nos outros filmes dele – o final surpresa deixa a história “fechadinha”, aqui ele nos convida à refletir – algo não muito comum no cinema atual.
Cotação: 4,5/5